MANLIO

Daniel Ganser

ÍNDICE


MANLIO DINUCCI


“Copyright Zambon Editore”

GUERRA NUCLEAR

O DIA ANTERIOR

De Hiroshima até hoje:

Quem e como nos conduzem à catástrofe

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Tuesday, 20 March 2018

PT -- GUERRA NUCLEAR: 1.3 OS EFEITOS DA CHUVA RADIOACTIVA

MANLIO DINUCCI

Copyright Zambon Editore”

GUERRA NUCLEAR
 O DIA ANTERIOR

De Hiroshima até hoje:

Quem e como nos conduzem à catástrofe


1.3  Os efeitos da chuva radioactiva


O maior número de vítimas é provocado pelo fallout, ou seja, a recaída ou chuva radioactiva. Cerca de metade dos materiais radioactivos produzidos pela explosão nuclear, voltam a cair no solo dentro de vinte e quatro horas: a outra metade, constituída por partículas mais leves, espalha-se na atmosfera. Depois da explosão no solo de uma bomba de 1 megaton, as pessoas que permanecem ao ar livre ficam expostas a doses mortais de radiações – radiações gama externas, produzidas por materiais radioactivos e radiações beta pelo contacto do fallout sobre a pele – numa área de cerca de 2.000 quilómetros quadrados e a doses perigosas numa área de 10.000 km2.
Um número crescente de pessoas, que permanecem aparentemente ilesas, começam a apresentar sintomas indicadores do síndroma da radiação. No caso de síndromas que afectam o sistema nervoso central, causada por forte radiação, a vítima é afectada por enxaqueca, seguida rapidamente por um estado de sonolência, profunda letargia e apatia, um tremor generalizado e perda de coordenação muscular, entra num estado de coma, acompanhado de convulsões e a morte ocorre dentro de 48 horas.Não existindo nenhum tratamento possível, o resultado é fatal.
No caso de síndroma gastrointestinal, provocado por irradiação aguda, a vítima é atingida por náuseas, vómitos, diarreia hemorrágica, acompanhada de um estado grave de desidratação  e febre alta. No espaço de uma ou duas semanas verifica-se a morte por enterite, septicemia, toxemia ou desequilíbrio dos líquidos orgânicos.
Um síndroma hematopoiético, devido a doses menores, provoca na vítima, uma fase inicial de náusea e vómito, que se prolonga por 24 horas, à qual se segue uma semana de incubação em que o indivíduo parece normal. Neste ponto inicia-se um estado de mal-estar difuso, acompanhado de febre e de forte diminuição dos glóbulos brancos em circulação. Petéquias e hemorragias das gengivas não tardam a manifestar-se, enquanto cai o número das plaquetas sanguíneas e se determina um estado de anemia devido a insuficiência medular e hemorragias. Dependendo do grau de exposição e da extensão das lesões da medula óssea, a pessoa pode restabelecer-se em algumas semanas ou alguns meses, ou caso contrário, morrer por hemorragia ou septicemia, devido à supressão das defesas imunitárias.

O destino daqueles que, encontrando-se no raio de destruição da bomba nuclear, tiveram a má sorte de não morrer imediatamente, descrevem-no os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki por tê-lo visto com os seus próprios olhos.  Michito Ichimaru - um estudante de Medicina que, no momento da explosão da bomba sobre Nagasaki, se encontra a dois quilómetros e meio do hipocentro, não tendo podido ir para a aula devido ao descarrilamento de um eléctrico – conta «À 11 da manhã, enquanto estava no quarto com um companheiro de estudos, senti o ruído de um B-29 que passava sobre as nossas cabeças. Pouco depois, o ar acendeu-se com uma luz amarela brilhante e sentimos um enorme golpe de vento. Aterrorizados, precipitámo-nos para nos  escondermos no gabinete. Mais tarde, quando me recuperei, vi que no tecto se tinha produzido um buraco, todos os vidros se tinham quebrado e uma lasca tinha-me feito uma ferida no ombro, que sangrava. Ao sair, vi que o céu de azul se tinha tornado negro e tinha começado a cair uma chuva negra. Pouco depois, tentei chegar à minha Escola de Medicina, em Urakami, mas não consegui por causa dos incêndios que surgiam por toda a parte. Encontrei muitas pessoas que regressavam de lá. Tinham as roupas rasgadas e farrapos de pele que pendiam do corpo. Vagueavam como fantasmas.

«No dia seguinte consegui alcançar Urakami. Restavam, unicamente, as estruturas em cimento e ferro. Avizinhando-me da escola, vi cadáveres negros e carbonizados, que mostravam o branco dos ossos. Dentro do edifício escolar destruído, encontrei alguns dos meus companheiros ainda com vida, mas incapazes de se moverem. Mesmo os mais fortes estavam caídos por terra.Falei com eles e disseram-me que iriam recuperar, mas, na realidade, todos morreram dentro de poucas semanas. Nunca mais posso esquecer o olhar daqueles olhos nem o som daquelas vozes. Subi a pequena colina atrás da escola. As árvores tinham perdido a folhagem, a colina verde tinha-se tornado castanha. Encontrei muitos estudantes, médicos e enfermeiras e alguns pacientes fugidos do hospital. Estavam muito fracos e sedentos, gritavam: «Dá-me, água, água, suplico-te». Tinham as roupas em farrapos, sujas e ensanguentadas. O seu estado era gravíssimo. Levei amigos pela colina abaixo, carregando-os nos meus ombros. Servindo-me de um carrinho puxado por uma bicicleta, levei-os para casa.Morreram todos dentro de poucos dias. Alguns amigos morreram com febre elevada, em delírio. Outros lamentavam-se de um mal estar geral, e tinham diarreia com sangue. Em todas as escolas públicas que visitei, encontrei muitos sobreviventes levados para lá, por pessoas com saúde. É impossível descrever o horror daquela cena. Recordo-me das vozes que gritavam de dor e e um fedor terrível. Eu lembro-me disto como sendo o inferno. Também todas estas pessoas morreram em poucas semanas.»

O testemunho deste estudante de Medicina indica o que mais tarde será cientificamente verificado. A International Physicians for the Prevention for Nuclear War ( A Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear) – fundada em 1980 pelo americano, Bernard Lown e pelo soviético, Evgueni Chazov e premiada, em 1985, com o Prémio Nobel da Paz, pela sua «informação credível» sobre as consequências da guerra nuclear – demonstra que, depois de um bombardeamento nuclear, a assistência médica às vítimas das radiações consiste, unicamente, em aliviar o seu sofrimento enquanto estão a morrer, a prestar-lhes «a última ajuda»

Com efeito, depois de um bombardeamento nuclear, seria muito difícil, se não impossível, assistir os feridos graves e os moribundos. Médicos e enfermeiros, que restassem na zona, apesar de saberem o perigo mortal das radiações, deveriam trabalhar na condição caótica de uma cidade destruída e em chamas, com os poucos medicamentos que restassem, privados de energia eléctrica e de telecomunicações. O impulso electromagnético, produzido pela explosão nuclear, de facto, colocaria fora de uso todos os aparelhos eléctricos e electrónicos não protegidos. Num ataque em grande escala, bastaria uma explosão nuclear a uma altitude de 100 km para colocar fora de uso esses aparelhos, num raio de 1.000 km.

Em 1945, o jovem Michito Ichimaru, enquanto assiste impotente, à morte dos amigos pelo efeito da «chuva negra» radioactiva, não pode saber que tantas outras pessoas morreram sucessivamente, também em zonas longínquas, sempre por causa do bombardeamento nuclear de Hiroshima e Nagasaki. As partículas radioactivas, que a explosão de uma bomba nuclear dispersa na estratosfera, tornam a cair no solo depois de algumas semanas, depositando-se num círculo amplo em volta da Terra, à mesma latitude da explosão. A percentagem de radioactividade desta recaída intermédia aumenta,  se o engenho nuclear é de potência menor, pois que grande parte das partículas radioactivas produzidas pela explosão fica na troposfera, mais sujeita a turbulência e, depois de ter dado várias voltas em torno da Terra, torna a cair no solo. Depois de alguns meses ou anos, também as outras partículas radioactivas tornam a cair sobre toda a Terra.

Calcula-se que numa cidade de um milhão de habitantes – onde todos, no momento da explosão, se encontrassem dentro dos edifícios com um factor de protecção igual a 5 (ou seja, capaz de reduzir a um quinto, a dose de radiações que receberiam se estivessem no exterior) – a recaída local de uma explosão nuclear de 1 megaton a nível do solo provocaria cerca de 230.000 vítimas, 85.000 das quais morreriam no decurso dos primeiros meses. Com um factor de protecção igual a 1,5 - as vítimas da radiação intensa seriam 510.000, 190.000 das quais morreriam nos primeiros meses; como consequência a longo prazo, 30.000 pessoas morreriam de tumores malignos provocados pelas radiações, e outras 9.000 poderiam transmitir danos genéticos aos seus próprios descendentes.

Ainda mais amplos seriam os efeitos do bombardeamento nuclear de uma central nuclear, que aumentaria enormemente a quantidade de radionuclídeos de longo prazo. Se um reactor fosse atingido por uma bomba nuclear, a sua radioactividade espalhar-se-ia juntamente com a da bomba. Dado que ela contém uma quantidade relativamente pequena de compostos radioactivos de curto prazo, a sua destruição não contribuiria sensivelmente para o aumento da radioactividade do ambiente, na primeira semana. Os efeitos mais graves seriam a longo prazo, enquanto a destruição do reactor provocaria a dispersão de quantidades de Estrôncio-90   e Césio-137, cuja radioactividade perdura por muito mais tempo e espalha-se por uma área muito mais vasta.

A população das áreas expostas à recaída intermédia seriam sujeitas a irradiação interna, principalmente por causa do Iodo-131, contido no leite dos animais que tivessem pastado em zonas contaminadas. Atingiria principalmente as crianças e os fetos das mulheres grávidas, que teriam a tiróide danificada. Radionuclídeos como o Estrôncio-90 e o Césio-137 exporiam os habitantes da zona contaminada ao perigo de radiações a longo prazo.



A seguir:

1.4 O inverno nuclear





Tradução: Maria Luísa de Vasconcellos

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